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Edições Anteriores 219 O Bicho Homem
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Escrito por Rizelda Beserra   
Ter, 06 de Abril de 2010 12:52

RESUMO

 

Ao se falar nas relações entre o homem e o animal comumente não se percebe como ambos estão intimamente ligados e o modo como um pode influenciar na vida do outro. Essa ligação é tão forte que até mesmo na literatura é possível observá-la. Portanto, este artigo tem como objetivo analisar a metáfora animal em Bichos, de Miguel Torga, ou seja, como estão representados esses seres na obra torgueana. Para cumprir com o propósito aqui exposto, divide-se esse o artigo em três pontos, o primeiro busca um estudo sobre como o animal está representado no imaginário humano e as várias simbologias que assume perante a vida do homem. No segundo observa-se a simbologia animal na literatura e em outras artes e finaliza-se o estudo com a análise da obra do referido autor. Constatou-se, na análise, que é bastante difícil descobrir a fronteira entre homem e bicho.


Palavras-chave: Homem. Animal. Metáfora.

  

 

 

ABSTRACT

 

When we speak in the relationships between the man and the animal it is not noticed as both they are intimately linked and the way as one can influence in the life of the other. That connection is so strong that even in the literature it is possible to observe it. Therefore, this article has as objective analyzes the animal metaphor in Bugs, of Miguel Torga, in other words, as they are represented those bugs in the work torgueana. To accomplish here with the purpose exposed, we becomes separated that article in three chapters, the first search a study on as the animal it is represented in the imaginary human and the several symbologies that it assumes before the man's life. In the second the animal symbology is observed in the literature and in other arts and we conclude the study with the analysis of the referred author's work. It was verified, in the analysis, that is quite difficult to discover the border between man and bug.

Key-words: Man. Animal. Metaphor.


INTRODUÇÃO

 

Esse artigo pretende observar contos da obra Bichos de Miguel Torga buscando a representação animal assinalada pelo autor na referida obra. Ressalta-se porém que, apesar de o animal estar ligado à vida humana em todas as direções: social, imaginária, religiosa, cultural, etc. é difícil a percepção, pois essa intimidade é um fenômeno tão natural que as pessoas não param para observar. Nesse sentido essa pesquisa traz, a princípio, uma breve explanação sobre a relação homem/animal explorando alguns aspectos inerentes à vida cotidiana de ambos, com o propósito de entender melhor a obra estudada e também mostrar que a imaginação humana, no que concerne ao animal, sempre esteve na literatura como se vê nas fábulas e bestiários desde a Antiguidade.

 

1. O ANIMAL NO IMAGINÁRIO E NA VIDA DOS SERES HUMANOS

 

A vida do homem esteve e está ligada ao animal de alguma forma desde sempre, seja por uma visão religiosa, científica ou até mesmo de crenças, e simboliza grande parte de tudo que alimenta o imaginário humano. Assim, pelo prisma da religião, segundo a Bíblia Sagrada, o animal fora criado um dia antes do homem (quinto dia) para servi-lo “e disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra”. (Gênesis 1: 26). Já se pode perceber aí um ponto relevante que traz o homem como sendo superior ao animal, o que possivelmente tenha contribuído para uma relação conturbada, recheada pelos anseios humanos que acarreta num afastamento entre os mesmos, tudo isso por uma precária interpretação. Por outro lado, para a visão científica, esta relação é ainda mais estreita, pois acredita-se que o homem e o animal (mais especificamente o macaco) tenham um ancestral em comum, sendo assim, o homem evoluiu de uma espécie que assemelha-se ao macaco, tendo passado por algumas etapas até chegar à espécie humana (WIKIPEDIA, 2008, p. 1): “Australopithecus, Homo Habilis, Homo Erectus e Homo Sapiens”. Isso pode ser possível de acordo com a teoria da evolução defendida por Charles Darwin, na qual as espécies evoluem e se adaptam ao meio para a própria sobrevivência.

 

Quanto mais se estuda o homem, perguntas surgem sobre quem ele realmente é. E quanto mais se conhece os animais, mais se questiona sobre essa sua real irracionalidade. Quando o homem mata seu próximo por raiva ou outros motivos que não justificam a morte, ou maltrata para satisfazer suas vontades, ele está sendo racional? E os animais, será que eles realmente não pensam? Será que eles não sentem? O que dizer, portanto do modo como eles conseguem organizar-se em comunidades, em grupos, em bandos de acordo com suas espécies? Isso não é inteligência? O que falar ainda sobre os vários casos em que animais de estimação passam dias em pura melancolia pela morte de seus donos? Isso não é sentimento? Encontrar respostas não é nada fácil, mas é extremante necessário repensar nessas relações.

 

1.1     AS CRENÇAS

 

Muitas crenças circundam os animais no imaginário humano, e já estão aí há mais tempo do que se pressupõe. Nelas há um fator que tem, de certa maneira, trazido transtornos para os animais. Pois alguns conceitos de sorte e azar e até de mau agouro, acabam influenciando o destino de algumas espécies. Acredita-se, por exemplo, que a esperança (pequeno inseto de cor verde) dá sorte, já o canto da coruja ou do galo (fora de hora) é mau agouro; o coelho é símbolo da fertilidade, o canto do Bem-te-vi é sinal de que alguém estimado irá chegar, se um cão cava na frente de uma determinada casa ou em seu quintal, significa que está cavando a sepultura de alguém da casa. Mas em que se fundamentam tais crendices? No caso do coelho, pode-se observar a questão reprodutiva, visto que é um dos animais que mais reproduzem e em maior quantidade. Essas características proeminentes acabam dando origem a certas crenças, e exemplos como estes são inúmeros. E ainda se tratando de animais do bem e do mal, de sorte e de azar, a influência que estes têm no jogo do bicho e na interpretação de sonhos também é bastante interessante.

 

1.2 ZOOFILIA

 

Descobrir a sexualidade é uma das fases principais pelas quais passam todos os adolescentes, e é conhecido que alguns indivíduos, para essa descoberta, usem o animal. A essa prática chama-se zoofilia – relação sexual entre seres humanos e animais – que já acontece há bastante tempo. Acredita-se inclusive, como diz Ronecker (1997), que desde o início dos tempos, era comum que pastores e cabreiros, em virtude da solidão nas pastagens, tivessem as fêmeas (animais) por companheiras, embora, a partir da Idade Média, essa prática tenha passado a ser vista como diabólica com pena de morte para quem a praticasse. Os humanos ainda unem-se a cães, cadelas, bodes, cabras e muitas outras espécies para satisfação sexual. Esse ato não foge à realidade e acontece principalmente nas comunidades rurais onde o contato homem/animal é mais intenso.

 

1.3 DOMESTICAÇÃO DE ANIMAIS

 

Além de tudo que já foi exposto, percebe-se que o ser humano sempre necessitou do animal, seja como transporte, alimento ou ferramenta de trabalho, e assim a besta tinha um pouco do respeito do homem. Com o passar do tempo o homem acabou domesticando algumas espécies, o que se pode concordar com Ronecker (1997, p. 13) ao afirmar que: “[...] a domesticação dos animais passou a assemelhar-se mais e mais à escravidão. Inicialmente amigo ou inimigo do homem, o animal acabou tornando-se sua coisa, seu joguete”. Os animais passaram a ser domesticados e criados como animais de estimação para atender às necessidades do humano, às vezes nem por necessidade, mas para a satisfação do ego, e essa criação deu-se de maneira corrompida uma vez que o animal perdeu toda a sua liberdade e essência natural em função dos desejos humanos, o que se nota em animais ensinados a andar sobre duas patas ou vestidos para apresentação pública. Nessa convivência constante, o animal acaba tornando-se um tipo de espelho, através do qual, o seu dono pode se enxergar, uma vez que o animal de estimação é moldado ao estilo de vida de seu proprietário.

 

 

2. A SIMBOLOGIA ANIMAL NA LITERATURA E EM OUTRAS ARTES

 

Como se vê, perceber o animal sob diversas formas é algo muito constante em tudo que se relaciona à vida humana. Destarte, a arte, em todas as suas faces, não poderia deixar de ser citada.

 

2.1 MÚSICAS

 

A música é uma forma de expressar sentimentos, angústias, injustiças, repressões. É um modo de transmitir aos outros o que se sente. Em Como dois animais (Alceu Valença) se percebe claramente a comparação que é feita entre homem e animal no ato sexual:

 

[...] Meu olhar vagabundo de cachorro vadio

Olhava a pintada e ela estava no cio

E era um cão vagabundo e uma onça pintada

Se amando na praça como os animais

[...] (VAGALUME, 2008, p. 1, grifos nossos)

 

O uso das duas figuras cão e onça pintada estão aí para retratar, de uma maneira mais direta, um homem e uma mulher que expressam seus desejos carnais e concretizam o ato sexual. Na famosa música de Luiz Gonzaga A volta da asa branca, se percebe a figura do animal como guia para o povo:

 

Já faz três noites

Que pro norte relampeia

A asa branca

Ouvindo o ronco do trovão

Já bateu asas

E voltou pro meu sertão

Ai, ai eu vou me embora

Vou cuidar da plantação

[...] (VAGALUME, 2008, p. 2)

 

A ave, que retorna para o sertão, guia os imigrantes de outrora de volta à suas terras, uma vez que o seu retorno ao sertão é sinal de que a chuva é vindoura. A vida do homem e do animal é retratada fielmente nessas músicas. E assim, se solidifica ainda mais a natureza animalesca do homem, e a presença animal no seu imaginário e na sua literatura.

 

2.2 FILMES

Muitos são os filmes que usam esse artifício para transmitir mensagens às crianças de todas as idades. Vale citar Madagascar, nele os animais são os personagens principais enquanto o humano ocupa papéis secundários e de servidão aos primeiros. É impressionante como em Madagascar enxerga-se a sociedade humana, capitalista, individualista e medrosa. Medrosa sim, pois quantas pessoas deixam de lado seus sonhos, sua família e até mesmo sua vida pessoal, em função apenas de um salário que lhes concede uma vida financeiramente estável? Muitos humanos esquecem de viver intensamente por medo de perder um cargo, já que o campo de trabalho está tão competitivo, e isso se nota nos personagens Alex, Glória e Nelman, embora sejam contagiados posteriormente pela vivacidade de Marty.  Como afirma Burgardt (2005, p.2) “Cada vez mais as empresas exigem do funcionário um novo perfil profissional. [...] o trabalhador passa a ser muito mais requisitado, e, em contrapartida, dedica menos tempo a suas atividades de lazer.” O mundo capitalista tem dominado a vida do ser humano de tal forma que tudo gira em torno do capital financeiro.

 

2.3 LITERATURA

 

Assim como na vida do homem, o animal também está presente em sua literatura, e a variedade desta é ampla e há muito conhecida, pois como afirma Coutinho (2007, p. 143): “No grande teatro da representação literária, os animais vêm, de há muito, sendo chamados a contracenar com os humanos e, nessa convivência, transcrita nos jogos de narratividade, são frequentemente colocadas em evidência marcas comportamentais de ambos os personagens”. Ao se falar em literatura entende-se “qualquer dos usos artísticos da linguagem” (XIMENES, 2000, p.585), por isso são bestiários, fábulas, mitos, novelas, filmes, músicas e muitas outras categorias que trazem os animais como personagens, sozinhos ou acompanhados do ser humano.

 

Nos bestiários que são “manuscritos medievais compostos por descrições detalhadas do mundo natural e essencialmente animal” (SERRA, 2008, p. 1) encontram-se descrições de animais (reais ou imaginários), através das quais, o homem pode se ver refletido e assim, simbolicamente, ter lições de religião ou moralidade. E por isso tiveram muita influência na literatura com o seu aproveitamento principalmente nas fábulas.

 

As fábulas, como são conhecidas as pequenas narrativas alegóricas, aproveitam a figura do animal para representar tipos humanos como: o egoísta, o ingênuo, o espertalhão, o avarento, o mentiroso, o vaidoso, etc. e com tais associações feitas entre animais e características humanas, permanecem até hoje idéias como a de que, por exemplo, o leão representa a realeza; a raposa – esperteza; o cordeiro – bondade; e assim por diante.

 

Muitas fábulas bastante conhecidas hoje são muito antigas, por exemplo, O Ratinho da cidade e o Ratinho do campo, A raposa e as uvas, A galinha dos ovos de ouro, A rã e o boi, e uma bastante famosa A cigarra e as formigas, que foi escrita por Esopo, adaptada por La Fountaine e readaptada, em duas versões, por Lobato. É relevante lembrar que a fábula é composta por duas partes, a alma e o corpo, que são em palavras de Coutinho (2007, p. 145) “[...] a alma da fábula foi a denominação dada à moralidade, em contraposição ao corpo, que seria o relato.” Ou seja, toda fábula distingue-se pela lição de moralidade que segue-se ao relato.

 

Além do que já foi exposto sobre a presença dos animais-personagem na literatura, não se pode deixar de falar de obras mais atuais que também trazem esse arquétipo. No romance Fazenda Modelo, de Chico Buarque de Holanda, por exemplo, encontra-se “[...] uma alegoria do Brasil: no lugar de indivíduos, bois e vacas; no lugar do país, uma enorme fazenda.” (MELLO, 2003, p.48). É uma obra fantástica que retrata, por vezes até de maneira cômica, a realidade vivida pelo Brasil na década de 70, durante o período da ditadura militar, no qual predominava a censura.

 

Uma outra obra muito interessante é A revolução dos bichos de George Orwell, nessa, homens e animais convivem em clima hostil e mais uma vez esses bichos representam o ser humano, que luta por um ideal de justiça e de liberdade, embora se decepcione no final.

 

É nesse contexto que Miguel Torga traz sua arca de homens e de bichos recheada de simbolismos, e apresenta em Bichos diversos tipos humanos através dos animais, e a própria condição animalesca do ser humano.

 

  

3. A METÁFORA ANIMAL EM BICHOS, DE MIGUEL TORGA

 

Separar homem e animal no tocante ao imaginário humano e à literatura não é algo fácil de ser realizado, haja vista a convivência de ambos em comunhão (mesmo que o homem atue de modo a mudar isso).

 

Em Bichos, livro que contém quatorze contos, autoria de Miguel Torga, publicado em 1940, se encontra uma arca de homens e animais. Na obra, dez dos contos trazem animais como protagonistas e quatro trazem seres humanos. Atente-se então, para o fato de que o título dos contos é também o nome do protagonista de cada um deles. É interessante lembrar que o autor “não quer que nos seus bichos vejamos apenas bichos, mas também os seres humanos que simbolizam”. (BERARDINELLI, 1996, p. 1). O próprio autor do livro diz em seu prefácio que não pretende que o seu leitor leia o livro com a luz da imaginação acesa, nem atrair o seu olhar para a penumbra da sua simbologia, pois isso não é com ele, já que nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam. (TORGA, 1996). Portanto, é por este ângulo que, a seguir, cinco dos quatorze contos serão analisados, tentando desvendar sua tal simbologia e mostrando uma das várias maneiras possíveis, o modo como o autor conseguiu retratar vários tipos humanos usando os bichos.

 

3.1 NERO: O HOMEM E AS FASES DA VIDA

 

Vários humanos passam pela mesma situação do cão Nero. Assim como fala Almeida (2007, p. 767): “Nero [...] é alguém que já foi importante, amado, capaz, ‘senhor do seu nome’ mas deixa a indagação, até que ponto a família acompanha a decadência natural do ser?”. A infância é o momento em que se tem todas as atenções voltadas para si, e todos ao redor fazem questão de demonstrar apreço “Com dois meses apenas, fez então aquela viagem longa, angustiosa, nos braços duros dum portador. Mas à chegada teve logo o amigo acolhimento da patroa nova. Festas no lombo, leite, sopas de café”. (TORGA, 1996, p. 15).

 

Na juventude é chegado o momento de se tornar mais responsável no seio familiar e aprender a assumir determinadas obrigações “Com eles compartilhara aqueles longos oito anos de existência. Com eles passara invernos, outonos e primaveras, numa paz de família unida”. (TORGA, 1996, p. 14). É assim enquanto se é jovem, forte e produtivo.

 

Mas eis que chega a velhice. E o que acontece? Muitos são esquecidos a um canto da casa ou internados em asilos, e lá padecem o resto de suas vidas como se não tivessem família para ampará-los “Assim, acabava de velhice, podre por dentro, a meter fastio a toda gente”. (TORGA, 1996, p. 22). Triste fim, mas assim como aconteceu com Nero acontece com muita gente na vida real, pois até mesmo os filhos se afastam dos pais nesses casos. Os idosos passam a serem vistos como um peso para a família, e a morte lhes vem com um alívio “Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado”. (TORGA, 1996, p. 13).

 

As pessoas que agem desta maneira esquecem dois fatos de extrema relevância: primeiro de que a velhice chega para todos e assim como os idosos em geral, eles também irão, por vezes, necessitar do auxílio de outrem, e segundo que há uma lei (Nº 10.741) que defende os direitos da pessoa idosa como dispõe, por exemplo, o seu artigo 3º:

 

É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. (ESTATUTO DO IDOSO, 2007, p. 5, grifos nossos)

 

Assim, Torga leva o leitor a refletir sobre sua condição humana e cidadã, fazendo-o perceber que apesar de reconhecido como espécie humana, o mesmo não consegue diferenciar-se do bicho em todo o seu ciclo vital.

 

3.2 MADALENA: O BICHO ACUADO

 

Mulheres que têm desejos e que são independentes, mas que “preferem morrer, a ficar nas bocas do mundo”. (TORGA, 1996, p. 41). Essas são as “Madalenas” da sociedade real, mães solteiras que, diante do nascimento de um filho, padecem sob as injustiças da alma humana. Por mais que os conceitos se atualizem e a mulher ganhe independência, muitas delas ainda passam pela mesma situação de Madalena, a de serem repreendidas. E por isso têm que, muitas vezes, esconder seus próprios desejos. Como diz Almeida (2007, p. 768): “Madalena era a culpada que carregaria para sempre a mácula de sua ação insana e suja e seria rejeitada e vista pela sociedade como a perdida”. Por que uma mulher não pode ceder aos seus desejos? Por que não pode ser mãe solteira? Que leis a proíbem disso? Ela, como todas as mulheres, sente necessidade de uma vida livre de coibições sociais, que não induzam, como em Madalena, ao nascimento de um filho morto, “carne sem vida, vermelha e suja”. (TORGA, 1996, p. 45).

 

Não se pode deixar de notar, como Torga deixa explícito no conto a igualdade entre homem e bicho, e desta vez tanto Madalena, como o próprio filho. Quanto à Madalena, se percebe em: “E ela, a tola, comera, bebera e, por fim, rolara na palha aos berros” (TORGA, 1996, p. 42), este é o modo como o autor descreve o momento do ato sexual entre Madalena e Armindo, como se ela fosse um bicho que “berra”. Já o filho, é visto como um animal que dá coices “com o maldito do filho dentro da barriga aos coices” (TORGA, 1996, p. 42), isso nas contrações para o seu nascimento. O nome Madalena é comumente associado à Maria Madalena, trazida pela Bíblia Sagrada como uma mulher pecadora. E assim seria vista a personagem do conto caso seu segredo fosse descoberto.

 

3.3 MORGADO: O TRABALHADOR SUBSERVIENTE

 

Inúmeros são os casos em que a cobiça e a avareza governam o homem. E, desse modo, as pessoas ou coisas ao seu redor só são valorizadas enquanto têm algo a lhes oferecer, isso é um reflexo do mundo capitalista atual, onde o que é valorizado é o que dá lucro. Como aconteceu com Morgado, o jerico, enquanto era jovem e tinha vitalidade era bem cuidado por seu dono, mas quando “[...] Já não tinha as pernas da mocidade [...]” (TORGA, 1996, p. 54), foi deixado aos lobos. Quantos trabalhadores passam anos e anos servindo aos seus patrões, sempre firmes e companheiros nas dificuldades “[...] ambos, agora como se fossem um só, de tão cingidos [...]” (TORGA, 1996, p. 52), e quando chegam a certa idade são dispensados sem direito nenhum? Isto não está fora da realidade humana. É a mesquinhez, a covardia e a ingratidão humana para com o seu próximo.

 

Mais uma vez, a escolha do jerico como a representação de indivíduos pouco inteligentes, reflete a inocência de algumas pessoas que não são capazes de perceber quando são tratadas como “coisa” nas mãos de seus patrões, e que só têm valor enquanto têm o que oferecer.

 

3.4 JESUS: O MENINO E A ESPERANÇA DE SALVAÇÃO

 

Ao analisar o conto, o primeiro questionamento seria o por quê do nome Jesus para este conto e por que ele está situado justamente na metade do livro. Torga faz, sutilmente, uma intertextualidade com a Bíblia Sagrada. Seus personagens, o Pai, a Mãe e o filho, como diz Almeida (2007, p. 766): “[...] simbolizam, entre outras coisas, o trio da Santíssima Trindade”. Até mesmo a cordeira presa na árvore pode ser associada ao Cordeiro de Deus, o enviado para a remissão dos pecados humanos. As três paradas do menino para descansar ao subir na árvore, correlacionam-se às três quedas de Jesus Cristo a caminho do calvário. O momento de sua crucificação se percebe no seguinte trecho: “O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija”. (TORGA, 1996, p. 80).

 

Note-se que Jesus está no centro do livro, no meio dos homens e dos bichos, assim como o próprio Jesus Cristo está no centro da sociedade. O personagem do conto é ainda uma criança, que, como diz Almeida (2007) simboliza a esperança de um futuro melhor, haja vista as relações do homem atualmente. O ser humano tem se tornado pior que o animal quando não consegue controlar seus impulsos, e por isso fere, maltrata, mata o seu semelhante; e em virtude disso, o mundo tem vivido um momento de caos, no qual todos sofrem: o homem, o bicho, a natureza e a própria Gaia. Por isso que Jesus está no centro, é Ele o equilíbrio e a única salvação do mundo, assim como no conto, em que “o ninho tinha só um ovo” (TORGA, 1996, p. 80, grifo nosso), símbolo de vida e esperança.

 

3.5 VICENTE: O HOMEM INSUBMISSO

 

Na vida humana não é comum assistir à cena de um indivíduo que, sozinho, luta contra poderes que aprisionam, repreendem e humilham. Embora se saiba que elas existam. Vicente, como diz Machado (2007, p. 2): “Representa a persistência, a liberdade de ação, a iniciativa própria e a perspicácia; mas também a irreverência e a revolta”. E porque será que é justamente com este conto que Torga finaliza Bichos? A resposta a essa questão virá mais à frente.

 

Vicente simboliza aqueles que têm coragem de lutar por seus ideais e que se revoltam diante de situações opressoras “E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente” (TORGA, 1996, p.129), e que assume e aceita todas as consequências da sua escolha “Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as conseqüências da opção”. (TORGA, 1996, p. 134). No conto se observa também a postura contrária à de Vicente, a dos oprimidos conformados e acomodados “Não, ninguém podia lutar contra a dominação de Deus. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos, comandados pela sua implacável tirania”. (TORGA, 1996, p. 134).

 

A figura de Deus no conto ocupa o lugar do poder tirano e prepotente, que nada pode diante da insubmissão do corvo, a não ser aceitar a sua liberdade, a sua “vontade inabalável de ser livre” (TORGA, 1996, p. 135), e isso aconteceu justamente para que Vicente não conseguisse influenciar os outros. Era melhor perder apenas um (Vicente), do que arriscar perder todos. Apesar de ser o único nos contos de Bichos com esse tipo de comportamento de vitória sobre várias formas de dominação, é com ele que Torga finaliza seu livro, norteando o pensamento do seu leitor, enquanto homem social, a refletir sobre a posição que cada um deve assumir na sociedade em que vive: Ser e agir como “os outros” ou como Vicente?

 

Não são simplesmente bichos ou homens que se encontram nesse livro, são bichos-homem e homens-bicho. Assim como fala Almeida (2008, p. 133) Torga, conscientemente aborda por diversos ângulos várias faces da sociedade, mostrando a condição de ser do homem que “mesmo quando homem, torna-se inferior ao bicho, justamente pelo fator que lhe permite ser ‘homem’: a racionalidade”. Em diversos trechos da obra se percebe o modo como o animal se torna superior ao ser humano, quando consegue conter seus instintos, ao contrário do homem, que não o faz, e por isso pratica atrocidades, que nem mesmo a sua condição de racional pode justificar.

 

Observe-se que, em momento algum da obra, Torga deixa de associar seus bichos ao homem, e nem os homens ao bicho, como se ambos comungassem de uma mesma argamassa de vida, e sendo desse modo, inseparáveis, um só. Não se percebe fronteiras entre homem e animal em toda a obra. Através do olhar torgueano, a perspectiva que se tem é a de que os dois não se diferem, em certos momentos agem da mesma maneira, mesmo tendo o homem o seu título de racional.

 

 

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Ao observar a simbologia animal, o estudo mostrou que a fronteira que concede ao homem o título de homem e ao animal o título de animal é, e está, cada vez mais difícil de ser percebida. Viu-se ao analisar alguns contos de Bichos que essa fronteira já não existe, e que apesar de simbólicos, todos os seus contos retratam a mais pura realidade. Torga usou a figura animal para representar o homem e suas atitudes, e o fez perfeitamente, mostrando comportamentos e outras ações humanas que não se diferem dos animais. O homem, cada vez mais individualista põe-se abaixo dos próprios bichos, por sua arrogância, gula e soberba, que fazem dele só, em meio a uma multidão. No que concerne ao animal, o que se nota é um ser que vive tal como a natureza o concebe, salvo os casos em que é maltratado e modificado pelo humano.

 

Nas correlações feitas entre tais espécies (homem e animal) se percebeu que a vida de ambos corre num mesmo sentido. Os dois têm defeitos e virtudes, e em um se pode enxergar o outro. Destarte, ficam os questionamentos: Será que há mesmo uma fronteira entre o homem e o bicho? E até que ponto o homem é mesmo um ser racional?

 

O mundo todo tem vivido num momento de alerta constante, devido ao descaso que o homem tem tido consigo próprio. Pois a partir do momento em que ele modifica a natureza a seu bel-prazer, solapando suas relações com a mesma, ou trata os animais como um joguete de suas vontades, ele acaba prejudicando a si mesmo. A natureza é deteriorada a cada dia, dificultando a existência humana, e os animais se extinguem arruinando o ecossistema. E apesar de tudo isso o ser humano parece achar-se alto-suficiente, como se não necessitasse da natureza nem dos animais, e esquece de pensar no fato de que tudo isso forma um conjunto, e que, se um desses elementos falta, o conjunto torna-se cada vez mais fraco, e consequentemente chegará o dia em que não mais existirá. Infelizmente é nesse caminho que o homem tem seguido, colocando-se acima de qualquer outra coisa, tudo isso porque é racional. Afinal, quem é o irracional dessa história? E a fronteira que os separa, aonde está?

  

REFERÊNCIAS

 

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XIMENES, Sérgio. Minidicionário Ediouro da Língua Portuguesa. 2 ed. São Paulo: Ediouro, 2000.

 

 

 

Autor deste artigo: Rizelda Beserra - participante desde Seg, 14 de Dezembro de 2009.

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