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Maria Bonita: uma representação de mulher na obra de Myriam Fraga PDF Imprimir E-mail
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Escrito por EDIMAURA   
Qua, 16 de Novembro de 2011 20:39

Edimaura Santana da Silva1
RESUMO
A discussão sobre o tema mulher neste artigo se inicia com uma abordagem sócio-histórica e se desenvolve a partir das
possibilidades dialógicas presentes no poema Maria Bonita de Miryan Fraga, tendo em vista as singularidades da
mulher no tempo e nas relações de gênero.

Esta pesquisa foi realizada mediante leitura analítica do poema e de teorias
literárias sistematizadas por vários instrumentos metodológicos - fichas de leitura para a seleção e organização de
autores, levantando de esclarecimentos sobre a autora, o vocabulário, as figuras de construção poética e a ideologia.

 


Palavras-chave: Figura de construção. Feminismo. Mulher.


ABSTRACT
The debate on the issue of women in this article begins with a socio-historical and develops from the dialogical
possibilities present in the poem by Miryam Fraga Maria Bonita, in view of the uniqueness of women in time and in
gender relations. This research was carried out through analytical reading of the poem and literary theory systematized
by several methodological tools - read leaves for the selection and organization of authors, posing for author
information, vocabulary, figures of poetic construction and ideology.
KEY WORDS: Construction of figure. Feminism. Women


Introdução
A sociedade brasileira tem vivenciado nessas últimas décadas, grandes mudanças nas
posturas e práticas da mulher brasileira. As mulheres estão ocupando posições profissionais de
destaque no cenário brasileiro, seja na política, na economia, na educação ou demais âmbitos
sociais. Por conta dessas alterações, a mulher tem se tornado objeto de estudo em diversas áreas do
conhecimento acadêmico. Tornou-se comum as discussões acadêmicas a respeito do tema mulher.
O surpreendente, no entanto, é a rapidez com que a questão de gênero tem se propagado e
como o contexto histórico tem condicionado estas políticas e debates sobre o tema, proporcionando
condições materiais para que os estudos sobre mulher se consolidem enquanto tema transversal ,
quando não específico , dada a sua complexidade. Claro que a mulher não tinha tanta importância
nos séculos passados. Nesse tocante, é sabido que a propagação e interesse sobre o tema é resultado
de uma construção ideologia histórica que se inicia na Europa e nos Estados Unidos, no final da
Guerra Fria e logo em seguida estas idéias chegaram ao Brasil,modificando as velhas posturas e
atitudes a respeito do papel da mulher. Coutinho (1994, p.98), observa que mulher brasileira da
época foi bombardeada por toda esta ideologia que pensava a identidade feminina a partir do
marido, da casa e da criação dos filhos. Tal processo de construção da identidade da mulher levava
seu ser pessoal a ser definido a partir dos outros - marido, casa e os filhos e, desta forma, negava-se
à mulher a possibilidade de ser ela mesma.


Categorias da linguagem , assim como da ideologia , podem parecer fixas e dadas, mas,
na verdade, ambas estão sujeitas a constantes mudanças. Ao falar , as pessoas

__________________________

1 Pós-graduanda em Metodologia e Didática do Ensino Superior. Trabalho de conclusão de curso
apresentado como pré-requisito avaliativo para obtenção do título de especialista em Metodologia
Didática do Ensino Superior. Orientador:Prof. Doutor José Eduardo Ferreira Santos.


estabelecem , mantêm, confirmam e, até mesmo, questionam as organizações da
linguagem e das ideologias que são linguisticamente expressas. Desta forma , a ideologia
dominante , ao agi como princípio ordenador das diferenças em uma organização social
determinada, atribui significados e organiza as diferenças biológicas entre os sexos ,
dando-lhes um sentido que é social e natural.(COUTINHO , 1994, p.51)


Nos tempos atuais, as discussões sobre eas relações de gênero têm promovido um campo de
confrontos e movimentos, buscando apresentar um mundo no qual se multiplicam a diversidade de
forma integrada, partindo do pressuposto de que homem e Mulher são diferentes e um não pode
servir de pretexto para a configuração do outro. Isto é, a concepção identitária de um sujeito deve
ser considerada a partir dos seus próprios elementos biológicos, sócio-culturais e psicológicos.


Se muitas destas mudanças no papel e na posição social da mulher podem ser atribuídas
às pressões exercidas pelos movimentos feministas desencadeados nos Estados Unidos e
em alguns países europeus , elas se devem,também, às novas pesquisas acadêmicas que
alteraram substancialmente algumas concepções ,mitos e estereótipos antigos acerca da
mulher e configuraram o que se denominou Estudos da Mulher.(COUTINO,1994,p.13).


A temática Mulher e relação de gênero estendeu-se também na Literatura Brasileira , sendo
que a crítica literária fora a sua porta de entrada , numa tentativa de apontar para os perfis de
mulher expressos nos gêneros literários. Representar e enfatizar a presença da mulher na sociedade
numa perspectiva diferente do arquétipo da mulher dos séculos anteriores também constitui em
objetivos contundentes nas pesquisas literárias, tendo em vista as várias possibilidades de
compreensão da mulher na sua pragmática enquanto sujeito social, singular e plural, considerando
principalmente seus aspectos identitários.


A mulher na literatura brasileira


O perfil de mulher na literatura em geral, acompanha a ideologia social da época, ou seja, as
transformações sofridas pela sociedade. No século XIX, a mulher tinha o papel de “submissa”, de
“obediente” e “serva”, as que ousaram romper com este papel, como as personagens de Alencar,
enfrentaram os tabus para a época em que viveram. Dessa maneira, Alencar é precursor, no que diz
respeito à Literatura Brasileira, em retratar a mulher capaz de romper preconceitos e lutar por sua
liberdade pessoal, pois as personagens mostradas por ele mais tarde foram aprimoradas por outros
autores brasileiros do século XX.


A liberação feminina seja bem maior em países mais desenvolvidos, no Brasil a situação
da mulher em geral é ainda de desvalorização e submissão. Na imensa vastidão do
território nacional , o machismo impera e domina.(MORGADO,1987,p.18).


A maior parte dos estudos sobre mulher da literatura contemporânea são referentes a
análises da linguagem feminina em texto escrito por mulheres. Apresenta também aspectos do
cotidiano que mostram mulheres encarando a vida de diferentes modos, mas que dialogam com o
sexo masculino num direcionamento para se firmarem numa relação igualitária,um tanto
contraditório, pois graças a convenções,mulheres se calaram durante muito tempo e agora
descobrem que somente num dialogo paralelo com o ser masculino elas conseguem se reerguer.
(Nicholson, 1993, p.266) afirma que assim como a cultura patriarcal foi criada a partir da
experiência do homem ou, mais precisamente, da experiência do homem branco de classe média e
alta, as feministas estão criando uma nova cultura mundial baseada na cultura das mulheres.


Literatura feita por mulheres


Em relação a conquista de espaço no campo literário mulheres por espaço na crítica literária
Heloísa Buarque de Hollanda e Lúcia Araújo, no livro Ensaístas Brasileiras (1993) escreveram
o seguinte trecho:

Desta forma pode-se perceber, na própria estrutura dos verbetes, os vários momentos da
história da crítica feminina. No século XIX, os dados de identificação são
recorrentemente vinculados à origem familiar e à atuação em revistas e publicações
informais, determinando uma formatação mais narrativa e circunstancial. A partir de
1934, com a Fundação das Faculdades de Filosofia no Brasil, e, principalmente, no
período posterior à regulamentação dos cursos de pós-graduação que permitiram a
consolidação da pesquisa acadêmica, os verbetes tornam-se mais técnicos refletindo a
profissionalização da crítica feminina. (p.9)


Coutinho (1994, p.14) reforça que‘‘as mulheres eram concebidas como emocionais ao
extremo, incapazes de uma decisão racional, frequentemente choronas, ranzinzas, resmungonas e
cobradoras’’. Por esta razão as mulheres eram consideradas como frágeis por parte dos homens que
não admitiram sua participação na sociedade de forma igualitária.
A solução para esse monólogo foi que algumas mulheres começaram produzir obras
literárias dentro de um padrão masculino e analisadas a partir de uma visão masculina.
Se a atitude orientada pelo relacionamento é mais característico do feminino, o lado
sombrio ou aspecto não-reconhecido tem um desejo de poder ilimitado. Na medida em
que a mulher é, por natureza, de funcionamento cíclico e às vezes não tem a capacidade
de agir de forma totalmente extrovertida, ela anseia por essa liberdade completa que ,
imagina, pertence ao macho. .(NICHOLSON, 1993, p.136)
Somente desta forma algumas conseguiram estabelecer um perfil de obra e crítica feminina
na literatura e consequentemente atribuíram uma nova configuração a personagem feminina na
literatura brasileira. É nesta visão de mulher autônoma, porém dialógica que Myriam Fraga escreve
a 11ª estrofe do poema Maria Bonita: [...] Sou o gosto de sal, Veneno que espalharam/ No preto.
[...]. O poema em questão traz inicialmente uma personagem feminina passiva, construída por
figuras poéticas que conotam docilidade e em seguida nos sugere uma mulher sufocada em sua
sexualidade; uma mulher relativamente ignorante, rude.
A posição de um ego voltado para objetivos da identidade, reconhecimento e poder dá
margem a uma sombra, uma contraparte inconsciente inferior que recusa significado e
reprime o sentimento. a mulher nesta posição pode facilmente ser dominada pelos
valores patriarcais ao seu redor.( NICHOLSON,1993,p.137)
Invoca também uma possível evolução para esta mulher, através do ser masculino deixando
para o leitor a idéia de pureza do homem e “impureza da “mulher”. Apresenta uma luz metafórica
que inebria esta mulher e ao mesmo tempo reforça a idéia de falta de perspectiva da mesma. “As
escolhas das mulheres são estruturadas em grande parte por relacionamentos. “Ao contrário, os
relacionamentos entre homens tendem a ser estruturados largamente pelas escolhas que fazem”.
( NICHOLSON, 1993, p.136)
A idéia da liberdade e soltura do ser masculino para quem Maria Bonita aclama. Trata a
sexualidade masculina como um braseiro passando para o leitor a conotação de extrema virilidade
do homem. Morgado (1986), afirma que:
Há ainda a de considerar o fato de que, para os homens, uma moça mãe solteira significa
que ela está disponível [...] para um relacionamento sexual fato, aliás, que ocorre com as
mulheres desquitadas sem que haja tempo para se conhecerem melhor (p.56)
Não ocorreu também a nenhuma das mulheres que debater também a liberdade de amar
necessariamente não corresponde a apoiar libertinagem e promiscuidade - nenhum
assunto ou debate se perde por haver opiniões contrárias, nenhuma idéia é
necessariamente uma fonte de contágio de moralidade ou imoralidade, e senhoras por
foca de vidas já vividas não são jovenzinhas impressionáveis - ou não deveriam sê-los
mais nesta altura da vida. (p.78)
Seja qual for a definição de masculino e feminino, as qualidades femininas são
reprovadas e, consequentemente, tendem a ser reprimidas .Essas qualidades reprimidas
numa determinada mulher torna-se animus.(NICHOLSON,1993,p.172)
Dois períodos literários; duas faces antagônicas
No período romântico as mulheres eram concebidas como delicadas, sagradas, boazinhas, débeis
e ícones de beleza. Atingi-las seria um erro ao homem, pois essas eram sempre vencidas pelo amor.
Sobre esta idéia de ser intocável (NICHOLSON, 1993, p.33) diz que mais e mais mulheres estão
relacionando a idéia de divindade não com uma imagem antropomórfica, nem mesmo como umas
fagulhas divinas dentre nós, mas como a energia que flui os próprios processos da vida e do viver.
No Realismo, as mulheres eram ousadas, fortes, decididas sedutoras porque o contexto histórico
é transformado e com a estabilidade da sociedade burguesa começaram a surgir escritores e críticos
literários que apreciavam a independência, a racionalidade, e resgatavam os saberes socialmente
dominados. Foucault entende que saberes dominados são assim compostos:
[...] por duas coisas: por um lado, os conteúdos históricos que foram sepultados,
mascarados em coerências funcionais ou em sistematizações formais [...] Em segundo
lugar, por saber dominado se deve entender outra coisa [...] inteiramente diferente: uma
série de saberes que tinham sido desqualificados como não competentes ou
insuficientemente elaborados. (FOUCAULT, 2006 p.170)
Esta vontade está se realizando. Mas o período que atravessamos é um período de
transição; este mundo que sempre pertenceu aos homens ainda continua nas mãos deles;
as instituições e os valores da civilização patriarcal sobrevivem a se mesmos em grande
parte. Os direitos abstratos ainda estão longe de ser integralmente reconhecidos em toda
parte às mulheres. (BEAUVOIR, 1949, p.181)
Considerando essa posição teórica de que as mulheres possuíam saberes dominados e que hoje
existe uma valorização desses saberes, além do acréscimo de cultural desta mulher, faz sentido dizer
que a mudança de mentalidade na sociedade moderna e contemporânea contribuiu para que o perfil
da mulher fosse redimensionado.
A visão de mulher da escritora Myriam Fraga
Os estudos sobre gênero na obra de Fraga se dão através da intertextualidade, ou seja, a
interpretação da linguagem subjetiva e os elementos sócio-históricos que compõem a obra e
promovem o diálogo com as teorias dos estudos de gênero. Nas entrelinhas do poema Maria Bonita,
por exemplo, percebem-se os referidos elementos sócio-históricos quando da intenção da autora
Myriam Fraga, de apresentar a influência e o poder como exemplos das expectativas que a
sociedade desenvolveu sobre os diferentes papéis associados ao sexo. Nese sentido a autora utiliza
de constituintes poéticos que ora denuncia, ora justifica situações adversas , delimitanto as duas
faces de uma mulher forte e oprimida .
Estas expectativas sociais regulam o modo como as pessoas usam estas estratégias para
controlar os demais. Acredita-se, que estereótipos de que a mulher é menos competitiva, agressiva e
ou menos inteligente do que o homem pode limitar as estratégias femininas para a sua atuação
social. Pode-se notar também que o poema Maria Bonita traz questões existenciais do ser
humano, como os encantos e desencantos amorosos,sufocamento da expressão sexual da mulher e
adentra nas possíveis reflexões sobre o papel da mulher na sociedade[...] Tua mulher,/ tua
terra/Tua alma/Tua roça/ Coivara [...] A noite é farta/Como besta no presente cio [...] (FRAGA,
1996, p30).
Relação de poder no poema Maria Bonita
Os estudiosos da literária feminista perceberam que o patriarcado estava em toda parte, por
isso tentou redimensionar os papéis sociais desempenhados por homens e mulheres na literatura
brasileira contemporânea. Isto porque na perspectiva da burguesia, na qual a literatura da época se
baseia, as mulheres são excluídas de algumas atividades, principalmente das relativas ao
engrandecimento espiritual. Em contrapartida era conferida à mulher os estereótipos de boa,
sagrada, rainha do lar numa intenção de controle machista. [...]Torna-se difícil para uma mulher
abandonar este lugar de priivilégio que ela sempre gozou no espaço privado e de onde ela não só
vem organizando sua sobrevivência e resistência , como também vem participando , indiretamente –
através da influência contínua que pode exercer sobre os filhos e, muitas vezes também sobre o
marido [...] ( COUTINHO,1994, p.64).Assim, essas mulheres eram tolhidas de liberdade de
pensamento, de escolha, de senso crítico, de postura autônoma e de mais possibilidades de viver as
emoções, sonhos e conquistas da humanidade. A personagem do poema “vive” essas limitações e
por isso utiliza de estratégias para sobreviver nesta relação tensa de poder[...] Areia no sapato/Sou a
rede.[...] Pasto de aves meu corpo/Que trabalhas/Como quem corta e lavra. [...]
(FRAGA,1996,P.30). O poema trata também sobre a sensualidade da mulher, no entanto , esta
sensualidade não é concebida equanto parte essencial do ser feminino mas como elemento
simbólico do ser masculino, ou seja , a sensualidade de mulher em Maria Bonita está projetada
como um instrumento de controle do seu parceiro sexual e não como uma propriedade dela ,
enquanto ser humano. Tua égua parida/Sou a roseta na carne,/O lombo nas esporas. Essa proposta
de submissão sexual costuma ser um elemento de controle ou dominação masculina numa
sociedade patriarcal. [...]Aberta como um fruto/Sou soluço/Fome escura/De poço/Sou a caça [...]
(FRAGA, 1996, p30) .
Para a grande maioria das mulheres , este mundo conserva seu brilho depois do
casamento ; só o marido perde seu prestígio; a mulher descobre que a pura essência do
homem nele se degradou.Contudo o homem continua sendo a verdade do universo , a
autoridade suprema , a maravilhosa aventura, o senhor , o olhar, a presa , a salvação , o
prazer; encarna ainda a transcendência, é a resposta a todas a perguntas.E a mais leal das
esposas nunca consente em renunciar inteiramente a ele para se encerrar na morna
companhia de um indivíduo contigente. (Beauvoir, 1949, p.349)
Coutinho (1994) critica a submissão e controle patriarcal dizendo que ser mulher o e ser homem são
categorias construídas e, portanto , o ser mulher , da mesma forma que o ser homem , é resultado
de uma intrincada rede de significações.Assim, apesar de construir o grupo mais numeroso na
maioria das sociedades ( a metade ou mais da população de suas regiões ou países, o que é ser
mulher diz respeito a mulheres de diferentes grupos étnicos e camadas sociais .(p.17)
Há também na poesia em questão um estado metafórico de trevas para a mulher e de luz
para o homem. Esta luz serve como seta, indicação para uma mulher submissa aos caprichos do
homem.[...] Vem, meu dono/ meu sócio,/
Meu comparsa.[...]( FRAGA,1996, p.30).
Maria Izilda (2000) discute a relação de gênero alertando que é importante observar as
diferenças sexuais enquanto construções culturais, linguísticas e históricas, que incluem relação de
poder não localizadas exclusivamente num ponto fixam-no masculino, mas presente na trama
histórica (p.23). No mesmo poema há também outra perspectiva para a personagem feminina,
concebendo-a numa posição igualitária ao homem.[...]Sou montaria e cavalo/Fúria e faca./Ferro
em brasa na espádua[...](FRAGA,1996 ,p.30).Esta mulher é apresentada neste segundo momento
poético, enquanto força perigosa e controle do ser masculino porque esta representa sua segurança,
sua razão e a agilidade. A personagem é descrita finalmente enquanto ágil dominadora e dominada
num equilíbrio tanto com o seu parceiro quanto em relação à vida.[...] Desata a cartucheira/Teu
campo de batalha/Sou eu.[...] (FRAGA, 1996,p.30).
Nas diferentes classes sociais, a mulher se encontra sob pressão de ter que responder
simultaneamente a distintas solicitações dentro e fora de casa. A ternura e a calma que
necessita para cuidar de um bebê nada têm a ver com o retiro acelerado da fábrica ou da
firma onde trabalha, e isto Faz com que a mulher se sinta puxada para dois lados – de um
lado, a necessidade de ser mãe; de outro, a necessidade de ser pessoa. (Morgado, 1987,
p.45)
No poema analisado, a mulher é representada como força perigosa e controle do ser
masculino porque esta representa sua segurança, sua razão e a agilidade sem ter a caricatura da
figura masculina.[...] Sou tua fera./ Sussuarana/No escuro - bote e salto.[...] (FRAGA,1996,p.30)
“Esta compreensão geral do princípio feminino é reforçada por um conjunto complexo de símbolos
e mitos que aparececem em todas as formas de arte e literatura , assim como na religião e na
psicologia (NICHOLSON, 1993, p.114)
A mulher que imita compulsivamente padrões de pensamento e atividade que lhe
parecem masculinos estará, quando muito ,conseguindo transformar-se numa triste
caricatura da figura masculina tradicional. (NICHOLSON, 1993, p.65)
Então nos faz uma descrição sugestiva do universo feminino enquanto aquela que possui
toda riqueza que a segurança e o controle e racionalidade do homem.
A personagem Maria Bonita é descrita finalmente enquanto ágil dominadora e dominada
num equilíbrio tanto com o seu parceiro quanto em relação à vida.
Considerações finais
No seu processo de socialização, as mulheres foram treinadas para serem emocionais, para
serem mais filantrópicas, enquanto que os homens aprenderam a ser totalmente racionais. As
circunstancias sociais as relações de gênero modificam as convenções e explica a mudança da
mulher e a evolução do perfil feminino na literatura brasileira. Enquanto que o patriarcalismo e a
dominação da mulher são formas históricas não naturais, que causaram um atraso social e
intelectual danoso no histórico de vida da mulher. Os estudos e produções literárias enquanto
conhecimento acadêmico elemento socio-cultural, têm contribuído bastante na mudança de
paradigma da figura feminina. Vale salientar, no entanto que apesar de importantes políticas e
transformações sociais tenham acontecido, ainda existem desigualdades no tratamento entre
mulheres e homens, especialmente no nosso país.
Trabalhos de pesquisas e de crítica como estes, são importantes para a exploração deste tema
sob novos enfoques propagando a ideologia de igualdade entre os gêneros e para questionar alguns
mitos e estereótipos antigos a respeito da figura feminina.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEAUVOIR, S.-O Segundo Sexo - Círculo do Livro, Nova Fronteira, São Paulo, 1949
FOUCAULT, Michel- Microfísica do Poder- Edições de Graal, Rio de Janeiro, 1979
HOLLANDA, Heloisa Buarque de Ensaístas Brasileiras-Rocco, Rio de Janeiro, 1993
MATOS, Maria Izilda S. de, Por uma História da mulher-EDUSC, São Paulo, 2000.
MAY, Rollo, O Homem à procura de si mesmo-editora Vozes, Rio de Janeiro1973
MORGADO, Belkis Frony-A marca do gado: rótulo da mulher - José Olympio, Rio de Janeiro,
1987
FRAGA,Myriam,Femina-Fundação Casa de Jorge Amado,Salvador,1996
NICHOLSON, Shirley-O novo despertar da deusa: o princípio feminino hoje- Rocco, Rio de
Janeiro, 1993
ROCHA,Coutinho, Lúcia - Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares
- Gênero Plural, Rio de JMaria Bonita: uma representação de mulher na obra de Myriam
Fraga
Edimaura Santana da Silva2
RESUMO
A discussão sobre o tema mulher neste artigo se inicia com uma abordagem sócio-histórica e se desenvolve a partir das
possibilidades dialógicas presentes no poema Maria Bonita de Miryan Fraga, tendo em vista as singularidades da
mulher no tempo e nas relações de gênero. Esta pesquisa foi realizada mediante leitura analítica do poema e de teorias
literárias sistematizadas por vários instrumentos metodológicos - fichas de leitura para a seleção e organização de
autores, levantando de esclarecimentos sobre a autora, o vocabulário, as figuras de construção poética e a ideologia.
Palavras-chave: Figura de construção. Feminismo. Mulher.
ABSTRACT
The debate on the issue of women in this article begins with a socio-historical and develops from the dialogical
possibilities present in the poem by Miryam Fraga Maria Bonita, in view of the uniqueness of women in time and in
gender relations. This research was carried out through analytical reading of the poem and literary theory systematized
by several methodological tools - read leaves for the selection and organization of authors, posing for author
information, vocabulary, figures of poetic construction and ideology.
KEY WORDS: Construction of figure. Feminism. Women
Introdução
A sociedade brasileira tem vivenciado nessas últimas décadas, grandes mudanças nas
posturas e práticas da mulher brasileira. As mulheres estão ocupando posições profissionais de
destaque no cenário brasileiro, seja na política, na economia, na educação ou demais âmbitos
2 Pós-graduada em Metodologia e Didática do Ensino Superior. Trabalho de conclusão de curso
apresentado como pré-requisito avaliativo para obtenção do título de especialista em Metodologia
Didática do Ensino Superior. Orientador:Prof. Doutor José Eduardo Ferreira Santos.
sociais. Por conta dessas alterações, a mulher tem se tornado objeto de estudo em diversas áreas do
conhecimento acadêmico. Tornou-se comum as discussões acadêmicas a respeito do tema mulher.
O surpreendente, no entanto, é a rapidez com que a questão de gênero tem se propagado e
como o contexto histórico tem condicionado estas políticas e debates sobre o tema, proporcionando
condições materiais para que os estudos sobre mulher se consolidem enquanto tema transversal ,
quando não específico , dada a sua complexidade. Claro que a mulher não tinha tanta importância
nos séculos passados. Nesse tocante, é sabido que a propagação e interesse sobre o tema é resultado
de uma construção ideologia histórica que se inicia na Europa e nos Estados Unidos, no final da
Guerra Fria e logo em seguida estas idéias chegaram ao Brasil,modificando as velhas posturas e
atitudes a respeito do papel da mulher. Coutinho (1994, p.98), observa que mulher brasileira da
época foi bombardeada por toda esta ideologia que pensava a identidade feminina a partir do
marido, da casa e da criação dos filhos. Tal processo de construção da identidade da mulher levava
seu ser pessoal a ser definido a partir dos outros - marido, casa e os filhos e, desta forma, negava-se
à mulher a possibilidade de ser ela mesma.
Categorias da linguagem , assim como da ideologia , podem parecer fixas e dadas, mas,
na verdade, ambas estão sujeitas a constantes mudanças. Ao falar , as pessoas
estabelecem , mantêm, confirmam e, até mesmo, questionam as organizações da
linguagem e das ideologias que são linguisticamente expressas. Desta forma , a ideologia
dominante , ao agi como princípio ordenador das diferenças em uma organização social
determinada, atribui significados e organiza as diferenças biológicas entre os sexos ,
dando-lhes um sentido que é social e natural.(COUTINHO , 1994, p.51)
Nos tempos atuais, as discussões sobre eas relações de gênero têm promovido um campo de
confrontos e movimentos, buscando apresentar um mundo no qual se multiplicam a diversidade de
forma integrada, partindo do pressuposto de que homem e Mulher são diferentes e um não pode
servir de pretexto para a configuração do outro. Isto é, a concepção identitária de um sujeito deve
ser considerada a partir dos seus próprios elementos biológicos, sócio-culturais e psicológicos.
Se muitas destas mudanças no papel e na posição social da mulher podem ser atribuídas
às pressões exercidas pelos movimentos feministas desencadeados nos Estados Unidos e
em alguns países europeus , elas se devem,também, às novas pesquisas acadêmicas que
alteraram substancialmente algumas concepções ,mitos e estereótipos antigos acerca da
mulher e configuraram o que se denominou Estudos da Mulher.(COUTINO,1994,p.13).
A temática Mulher e relação de gênero estendeu-se também na Literatura Brasileira , sendo
que a crítica literária fora a sua porta de entrada , numa tentativa de apontar para os perfis de
mulher expressos nos gêneros literários. Representar e enfatizar a presença da mulher na sociedade
numa perspectiva diferente do arquétipo da mulher dos séculos anteriores também constitui em
objetivos contundentes nas pesquisas literárias, tendo em vista as várias possibilidades de
compreensão da mulher na sua pragmática enquanto sujeito social, singular e plural, considerando
principalmente seus aspectos identitários.
A mulher na literatura brasileira
O perfil de mulher na literatura em geral, acompanha a ideologia social da época, ou seja, as
transformações sofridas pela sociedade. No século XIX, a mulher tinha o papel de “submissa”, de
“obediente” e “serva”, as que ousaram romper com este papel, como as personagens de Alencar,
enfrentaram os tabus para a época em que viveram. Dessa maneira, Alencar é precursor, no que diz
respeito à Literatura Brasileira, em retratar a mulher capaz de romper preconceitos e lutar por sua
liberdade pessoal, pois as personagens mostradas por ele mais tarde foram aprimoradas por outros
autores brasileiros do século XX.
A liberação feminina seja bem maior em países mais desenvolvidos, no Brasil a situação
da mulher em geral é ainda de desvalorização e submissão. Na imensa vastidão do
território nacional , o machismo impera e domina.(MORGADO,1987,p.18).
A maior parte dos estudos sobre mulher da literatura contemporânea são referentes a
análises da linguagem feminina em texto escrito por mulheres. Apresenta também aspectos do
cotidiano que mostram mulheres encarando a vida de diferentes modos, mas que dialogam com o
sexo masculino num direcionamento para se firmarem numa relação igualitária,um tanto
contraditório, pois graças a convenções,mulheres se calaram durante muito tempo e agora
descobrem que somente num dialogo paralelo com o ser masculino elas conseguem se reerguer.
(Nicholson, 1993, p.266) afirma que assim como a cultura patriarcal foi criada a partir da
experiência do homem ou, mais precisamente, da experiência do homem branco de classe média e
alta, as feministas estão criando uma nova cultura mundial baseada na cultura das mulheres.
Literatura feita por mulheres
Em relação a conquista de espaço no campo literário mulheres por espaço na crítica literária
Heloísa Buarque de Hollanda e Lúcia Araújo, no livro Ensaístas Brasileiras (1993) escreveram
o seguinte trecho:
Desta forma pode-se perceber, na própria estrutura dos verbetes, os vários momentos da
história da crítica feminina. No século XIX, os dados de identificação são
recorrentemente vinculados à origem familiar e à atuação em revistas e publicações
informais, determinando uma formatação mais narrativa e circunstancial. A partir de
1934, com a Fundação das Faculdades de Filosofia no Brasil, e, principalmente, no
período posterior à regulamentação dos cursos de pós-graduação que permitiram a
consolidação da pesquisa acadêmica, os verbetes tornam-se mais técnicos refletindo a
profissionalização da crítica feminina. (p.9)
Coutinho (1994, p.14) reforça que‘‘as mulheres eram concebidas como emocionais ao
extremo, incapazes de uma decisão racional, frequentemente choronas, ranzinzas, resmungonas e
cobradoras’’. Por esta razão as mulheres eram consideradas como frágeis por parte dos homens que
não admitiram sua participação na sociedade de forma igualitária.
A solução para esse monólogo foi que algumas mulheres começaram produzir obras
literárias dentro de um padrão masculino e analisadas a partir de uma visão masculina.
Se a atitude orientada pelo relacionamento é mais característico do feminino, o lado
sombrio ou aspecto não-reconhecido tem um desejo de poder ilimitado. Na medida em
que a mulher é, por natureza, de funcionamento cíclico e às vezes não tem a capacidade
de agir de forma totalmente extrovertida, ela anseia por essa liberdade completa que ,
imagina, pertence ao macho. .(NICHOLSON, 1993, p.136)
Somente desta forma algumas conseguiram estabelecer um perfil de obra e crítica feminina
na literatura e consequentemente atribuíram uma nova configuração a personagem feminina na
literatura brasileira. É nesta visão de mulher autônoma, porém dialógica que Myriam Fraga escreve
a 11ª estrofe do poema Maria Bonita: [...] Sou o gosto de sal, Veneno que espalharam/ No preto.
[...]. O poema em questão traz inicialmente uma personagem feminina passiva, construída por
figuras poéticas que conotam docilidade e em seguida nos sugere uma mulher sufocada em sua
sexualidade; uma mulher relativamente ignorante, rude.
A posição de um ego voltado para objetivos da identidade, reconhecimento e poder dá
margem a uma sombra, uma contraparte inconsciente inferior que recusa significado e
reprime o sentimento. a mulher nesta posição pode facilmente ser dominada pelos
valores patriarcais ao seu redor.( NICHOLSON,1993,p.137)
Invoca também uma possível evolução para esta mulher, através do ser masculino deixando
para o leitor a idéia de pureza do homem e “impureza da “mulher”. Apresenta uma luz metafórica
que inebria esta mulher e ao mesmo tempo reforça a idéia de falta de perspectiva da mesma. “As
escolhas das mulheres são estruturadas em grande parte por relacionamentos. “Ao contrário, os
relacionamentos entre homens tendem a ser estruturados largamente pelas escolhas que fazem”.
( NICHOLSON, 1993, p.136)
A idéia da liberdade e soltura do ser masculino para quem Maria Bonita aclama. Trata a
sexualidade masculina como um braseiro passando para o leitor a conotação de extrema virilidade
do homem. Morgado (1986), afirma que:
Há ainda a de considerar o fato de que, para os homens, uma moça mãe solteira significa
que ela está disponível [...] para um relacionamento sexual fato, aliás, que ocorre com as
mulheres desquitadas sem que haja tempo para se conhecerem melhor (p.56)
Não ocorreu também a nenhuma das mulheres que debater também a liberdade de amar
necessariamente não corresponde a apoiar libertinagem e promiscuidade - nenhum
assunto ou debate se perde por haver opiniões contrárias, nenhuma idéia é
necessariamente uma fonte de contágio de moralidade ou imoralidade, e senhoras por
foca de vidas já vividas não são jovenzinhas impressionáveis - ou não deveriam sê-los
mais nesta altura da vida. (p.78)
Seja qual for a definição de masculino e feminino, as qualidades femininas são
reprovadas e, consequentemente, tendem a ser reprimidas .Essas qualidades reprimidas
numa determinada mulher torna-se animus.(NICHOLSON,1993,p.172)
Dois períodos literários; duas faces antagônicas
No período romântico as mulheres eram concebidas como delicadas, sagradas, boazinhas, débeis
e ícones de beleza. Atingi-las seria um erro ao homem, pois essas eram sempre vencidas pelo amor.
Sobre esta idéia de ser intocável (NICHOLSON, 1993, p.33) diz que mais e mais mulheres estão
relacionando a idéia de divindade não com uma imagem antropomórfica, nem mesmo como umas
fagulhas divinas dentre nós, mas como a energia que flui os próprios processos da vida e do viver.
No Realismo, as mulheres eram ousadas, fortes, decididas sedutoras porque o contexto histórico
é transformado e com a estabilidade da sociedade burguesa começaram a surgir escritores e críticos
literários que apreciavam a independência, a racionalidade, e resgatavam os saberes socialmente
dominados. Foucault entende que saberes dominados são assim compostos:
[...] por duas coisas: por um lado, os conteúdos históricos que foram sepultados,
mascarados em coerências funcionais ou em sistematizações formais [...] Em segundo
lugar, por saber dominado se deve entender outra coisa [...] inteiramente diferente: uma
série de saberes que tinham sido desqualificados como não competentes ou
insuficientemente elaborados. (FOUCAULT, 2006 p.170)
Esta vontade está se realizando. Mas o período que atravessamos é um período de
transição; este mundo que sempre pertenceu aos homens ainda continua nas mãos deles;
as instituições e os valores da civilização patriarcal sobrevivem a se mesmos em grande
parte. Os direitos abstratos ainda estão longe de ser integralmente reconhecidos em toda
parte às mulheres. (BEAUVOIR, 1949, p.181)
Considerando essa posição teórica de que as mulheres possuíam saberes dominados e que hoje
existe uma valorização desses saberes, além do acréscimo de cultural desta mulher, faz sentido dizer
que a mudança de mentalidade na sociedade moderna e contemporânea contribuiu para que o perfil
da mulher fosse redimensionado.
A visão de mulher da escritora Myriam Fraga
Os estudos sobre gênero na obra de Fraga se dão através da intertextualidade, ou seja, a
interpretação da linguagem subjetiva e os elementos sócio-históricos que compõem a obra e
promovem o diálogo com as teorias dos estudos de gênero. Nas entrelinhas do poema Maria Bonita,
por exemplo, percebem-se os referidos elementos sócio-históricos quando da intenção da autora
Myriam Fraga, de apresentar a influência e o poder como exemplos das expectativas que a
sociedade desenvolveu sobre os diferentes papéis associados ao sexo. Nese sentido a autora utiliza
de constituintes poéticos que ora denuncia, ora justifica situações adversas , delimitanto as duas
faces de uma mulher forte e oprimida .
Estas expectativas sociais regulam o modo como as pessoas usam estas estratégias para
controlar os demais. Acredita-se, que estereótipos de que a mulher é menos competitiva, agressiva e
ou menos inteligente do que o homem pode limitar as estratégias femininas para a sua atuação
social. Pode-se notar também que o poema Maria Bonita traz questões existenciais do ser
humano, como os encantos e desencantos amorosos,sufocamento da expressão sexual da mulher e
adentra nas possíveis reflexões sobre o papel da mulher na sociedade[...] Tua mulher,/ tua
terra/Tua alma/Tua roça/ Coivara [...] A noite é farta/Como besta no presente cio [...] (FRAGA,
1996, p30).
Relação de poder no poema Maria Bonita
Os estudiosos da literária feminista perceberam que o patriarcado estava em toda parte, por
isso tentou redimensionar os papéis sociais desempenhados por homens e mulheres na literatura
brasileira contemporânea. Isto porque na perspectiva da burguesia, na qual a literatura da época se
baseia, as mulheres são excluídas de algumas atividades, principalmente das relativas ao
engrandecimento espiritual. Em contrapartida era conferida à mulher os estereótipos de boa,
sagrada, rainha do lar numa intenção de controle machista. [...]Torna-se difícil para uma mulher
abandonar este lugar de priivilégio que ela sempre gozou no espaço privado e de onde ela não só
vem organizando sua sobrevivência e resistência , como também vem participando , indiretamente –
através da influência contínua que pode exercer sobre os filhos e, muitas vezes também sobre o
marido [...] ( COUTINHO,1994, p.64).Assim, essas mulheres eram tolhidas de liberdade de
pensamento, de escolha, de senso crítico, de postura autônoma e de mais possibilidades de viver as
emoções, sonhos e conquistas da humanidade. A personagem do poema “vive” essas limitações e
por isso utiliza de estratégias para sobreviver nesta relação tensa de poder[...] Areia no sapato/Sou a
rede.[...] Pasto de aves meu corpo/Que trabalhas/Como quem corta e lavra. [...]
(FRAGA,1996,P.30). O poema trata também sobre a sensualidade da mulher, no entanto , esta
sensualidade não é concebida equanto parte essencial do ser feminino mas como elemento
simbólico do ser masculino, ou seja , a sensualidade de mulher em Maria Bonita está projetada
como um instrumento de controle do seu parceiro sexual e não como uma propriedade dela ,
enquanto ser humano. Tua égua parida/Sou a roseta na carne,/O lombo nas esporas. Essa proposta
de submissão sexual costuma ser um elemento de controle ou dominação masculina numa
sociedade patriarcal. [...]Aberta como um fruto/Sou soluço/Fome escura/De poço/Sou a caça [...]
(FRAGA, 1996, p30) .
Para a grande maioria das mulheres , este mundo conserva seu brilho depois do
casamento ; só o marido perde seu prestígio; a mulher descobre que a pura essência do
homem nele se degradou.Contudo o homem continua sendo a verdade do universo , a
autoridade suprema , a maravilhosa aventura, o senhor , o olhar, a presa , a salvação , o
prazer; encarna ainda a transcendência, é a resposta a todas a perguntas.E a mais leal das
esposas nunca consente em renunciar inteiramente a ele para se encerrar na morna
companhia de um indivíduo contigente. (Beauvoir, 1949, p.349)
Coutinho (1994) critica a submissão e controle patriarcal dizendo que ser mulher o e ser homem são
categorias construídas e, portanto , o ser mulher , da mesma forma que o ser homem , é resultado
de uma intrincada rede de significações.Assim, apesar de construir o grupo mais numeroso na
maioria das sociedades ( a metade ou mais da população de suas regiões ou países, o que é ser
mulher diz respeito a mulheres de diferentes grupos étnicos e camadas sociais .(p.17)
Há também na poesia em questão um estado metafórico de trevas para a mulher e de luz
para o homem. Esta luz serve como seta, indicação para uma mulher submissa aos caprichos do
homem.[...] Vem, meu dono/ meu sócio,/
Meu comparsa.[...]( FRAGA,1996, p.30).
Maria Izilda (2000) discute a relação de gênero alertando que é importante observar as
diferenças sexuais enquanto construções culturais, linguísticas e históricas, que incluem relação de
poder não localizadas exclusivamente num ponto fixam-no masculino, mas presente na trama
histórica (p.23). No mesmo poema há também outra perspectiva para a personagem feminina,
concebendo-a numa posição igualitária ao homem.[...]Sou montaria e cavalo/Fúria e faca./Ferro
em brasa na espádua[...](FRAGA,1996 ,p.30).Esta mulher é apresentada neste segundo momento
poético, enquanto força perigosa e controle do ser masculino porque esta representa sua segurança,
sua razão e a agilidade. A personagem é descrita finalmente enquanto ágil dominadora e dominada
num equilíbrio tanto com o seu parceiro quanto em relação à vida.[...] Desata a cartucheira/Teu
campo de batalha/Sou eu.[...] (FRAGA, 1996,p.30).
Nas diferentes classes sociais, a mulher se encontra sob pressão de ter que responder
simultaneamente a distintas solicitações dentro e fora de casa. A ternura e a calma que
necessita para cuidar de um bebê nada têm a ver com o retiro acelerado da fábrica ou da
firma onde trabalha, e isto Faz com que a mulher se sinta puxada para dois lados – de um
lado, a necessidade de ser mãe; de outro, a necessidade de ser pessoa. (Morgado, 1987,
p.45)
No poema analisado, a mulher é representada como força perigosa e controle do ser
masculino porque esta representa sua segurança, sua razão e a agilidade sem ter a caricatura da
figura masculina.[...] Sou tua fera./ Sussuarana/No escuro - bote e salto.[...] (FRAGA,1996,p.30)
“Esta compreensão geral do princípio feminino é reforçada por um conjunto complexo de símbolos
e mitos que aparececem em todas as formas de arte e literatura , assim como na religião e na
psicologia (NICHOLSON, 1993, p.114)
A mulher que imita compulsivamente padrões de pensamento e atividade que lhe
parecem masculinos estará, quando muito ,conseguindo transformar-se numa triste
caricatura da figura masculina tradicional. (NICHOLSON, 1993, p.65)
Então nos faz uma descrição sugestiva do universo feminino enquanto aquela que possui
toda riqueza que a segurança e o controle e racionalidade do homem.
A personagem Maria Bonita é descrita finalmente enquanto ágil dominadora e dominada
num equilíbrio tanto com o seu parceiro quanto em relação à vida.
Considerações finais
No seu processo de socialização, as mulheres foram treinadas para serem emocionais, para
serem mais filantrópicas, enquanto que os homens aprenderam a ser totalmente racionais. As
circunstancias sociais as relações de gênero modificam as convenções e explica a mudança da
mulher e a evolução do perfil feminino na literatura brasileira. Enquanto que o patriarcalismo e a
dominação da mulher são formas históricas não naturais, que causaram um atraso social e
intelectual danoso no histórico de vida da mulher. Os estudos e produções literárias enquanto
conhecimento acadêmico elemento socio-cultural, têm contribuído bastante na mudança de
paradigma da figura feminina. Vale salientar, no entanto que apesar de importantes políticas e
transformações sociais tenham acontecido, ainda existem desigualdades no tratamento entre
mulheres e homens, especialmente no nosso país.
Trabalhos de pesquisas e de crítica como estes, são importantes para a exploração deste tema
sob novos enfoques propagando a ideologia de igualdade entre os gêneros e para questionar alguns
mitos e estereótipos antigos a respeito da figura feminina.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEAUVOIR, S.-O Segundo Sexo - Círculo do Livro, Nova Fronteira, São Paulo, 1949
FOUCAULT, Michel- Microfísica do Poder- Edições de Graal, Rio de Janeiro, 1979
HOLLANDA, Heloisa Buarque de Ensaístas Brasileiras-Rocco, Rio de Janeiro, 1993
MATOS, Maria Izilda S. de, Por uma História da mulher-EDUSC, São Paulo, 2000.
MAY, Rollo, O Homem à procura de si mesmo-editora Vozes, Rio de Janeiro1973
MORGADO, Belkis Frony-A marca do gado: rótulo da mulher - José Olympio, Rio de Janeiro,
1987
FRAGA,Myriam,Femina-Fundação Casa de Jorge Amado,Salvador,1996
NICHOLSON, Shirley-O novo despertar da deusa: o princípio feminino hoje- Rocco, Rio de
Janeiro, 1993
ROCHA,Coutinho, Lúcia - Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares
- Gênero Plural, Rio de Janeiro, 1994.
POESIA ANALISADA
MARIA BONITA
Autora:Myriam Fraga
Esta noite em Angico
a brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como que lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas límpias carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto de sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata
Sua a ponta
Do teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
Sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro - bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme. Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem, devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
- fúria e falta -
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele do meu peito
Esta fome sem data.
aneiro, 1994.
POESIA ANALISADA
MARIA BONITA
Autora:Myriam Fraga
Esta noite em Angico
a brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como que lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas límpias carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto de sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prataMaria Bonita: uma representação de mulher na obra de Myriam Fraga
Edimaura Santana da Silva3
RESUMO
A discussão sobre o tema mulher neste artigo se inicia com uma abordagem sócio-histórica e se desenvolve a partir das
possibilidades dialógicas presentes no poema Maria Bonita de Miryan Fraga, tendo em vista as singularidades da
mulher no tempo e nas relações de gênero. Esta pesquisa foi realizada mediante leitura analítica do poema e de teorias
literárias sistematizadas por vários instrumentos metodológicos - fichas de leitura para a seleção e organização de
autores, levantando de esclarecimentos sobre a autora, o vocabulário, as figuras de construção poética e a ideologia.
Palavras-chave: Figura de construção. Feminismo. Mulher.
ABSTRACT
The debate on the issue of women in this article begins with a socio-historical and develops from the dialogical
possibilities present in the poem by Miryam Fraga Maria Bonita, in view of the uniqueness of women in time and in
gender relations. This research was carried out through analytical reading of the poem and literary theory systematized
3 Pós-graduanda em Metodologia e Didática do Ensino Superior. Trabalho de conclusão de curso
apresentado como pré-requisito avaliativo para obtenção do título de especialista em Metodologia
Didática do Ensino Superior. Orientador:Prof. Doutor José Eduardo Ferreira Santos.
by several methodological tools - read leaves for the selection and organization of authors, posing for author
information, vocabulary, figures of poetic construction and ideology.
KEY WORDS: Construction of figure. Feminism. Women
Introdução
A sociedade brasileira tem vivenciado nessas últimas décadas, grandes mudanças nas
posturas e práticas da mulher brasileira. As mulheres estão ocupando posições profissionais de
destaque no cenário brasileiro, seja na política, na economia, na educação ou demais âmbitos
sociais. Por conta dessas alterações, a mulher tem se tornado objeto de estudo em diversas áreas do
conhecimento acadêmico. Tornou-se comum as discussões acadêmicas a respeito do tema mulher.
O surpreendente, no entanto, é a rapidez com que a questão de gênero tem se propagado e
como o contexto histórico tem condicionado estas políticas e debates sobre o tema, proporcionando
condições materiais para que os estudos sobre mulher se consolidem enquanto tema transversal ,
quando não específico , dada a sua complexidade. Claro que a mulher não tinha tanta importância
nos séculos passados. Nesse tocante, é sabido que a propagação e interesse sobre o tema é resultado
de uma construção ideologia histórica que se inicia na Europa e nos Estados Unidos, no final da
Guerra Fria e logo em seguida estas idéias chegaram ao Brasil,modificando as velhas posturas e
atitudes a respeito do papel da mulher. Coutinho (1994, p.98), observa que mulher brasileira da
época foi bombardeada por toda esta ideologia que pensava a identidade feminina a partir do
marido, da casa e da criação dos filhos. Tal processo de construção da identidade da mulher levava
seu ser pessoal a ser definido a partir dos outros - marido, casa e os filhos e, desta forma, negava-se
à mulher a possibilidade de ser ela mesma.
Categorias da linguagem , assim como da ideologia , podem parecer fixas e dadas, mas,
na verdade, ambas estão sujeitas a constantes mudanças. Ao falar , as pessoas
estabelecem , mantêm, confirmam e, até mesmo, questionam as organizações da
linguagem e das ideologias que são linguisticamente expressas. Desta forma , a ideologia
dominante , ao agi como princípio ordenador das diferenças em uma organização social
determinada, atribui significados e organiza as diferenças biológicas entre os sexos ,
dando-lhes um sentido que é social e natural.(COUTINHO , 1994, p.51)
Nos tempos atuais, as discussões sobre eas relações de gênero têm promovido um campo de
confrontos e movimentos, buscando apresentar um mundo no qual se multiplicam a diversidade de
forma integrada, partindo do pressuposto de que homem e Mulher são diferentes e um não pode
servir de pretexto para a configuração do outro. Isto é, a concepção identitária de um sujeito deve
ser considerada a partir dos seus próprios elementos biológicos, sócio-culturais e psicológicos.
Se muitas destas mudanças no papel e na posição social da mulher podem ser atribuídas
às pressões exercidas pelos movimentos feministas desencadeados nos Estados Unidos e
em alguns países europeus , elas se devem,também, às novas pesquisas acadêmicas que
alteraram substancialmente algumas concepções ,mitos e estereótipos antigos acerca da
mulher e configuraram o que se denominou Estudos da Mulher.(COUTINO,1994,p.13).
A temática Mulher e relação de gênero estendeu-se também na Literatura Brasileira , sendo
que a crítica literária fora a sua porta de entrada , numa tentativa de apontar para os perfis de
mulher expressos nos gêneros literários. Representar e enfatizar a presença da mulher na sociedade
numa perspectiva diferente do arquétipo da mulher dos séculos anteriores também constitui em
objetivos contundentes nas pesquisas literárias, tendo em vista as várias possibilidades de
compreensão da mulher na sua pragmática enquanto sujeito social, singular e plural, considerando
principalmente seus aspectos identitários.
A mulher na literatura brasileira
O perfil de mulher na literatura em geral, acompanha a ideologia social da época, ou seja, as
transformações sofridas pela sociedade. No século XIX, a mulher tinha o papel de “submissa”, de
“obediente” e “serva”, as que ousaram romper com este papel, como as personagens de Alencar,
enfrentaram os tabus para a época em que viveram. Dessa maneira, Alencar é precursor, no que diz
respeito à Literatura Brasileira, em retratar a mulher capaz de romper preconceitos e lutar por sua
liberdade pessoal, pois as personagens mostradas por ele mais tarde foram aprimoradas por outros
autores brasileiros do século XX.
A liberação feminina seja bem maior em países mais desenvolvidos, no Brasil a situação
da mulher em geral é ainda de desvalorização e submissão. Na imensa vastidão do
território nacional , o machismo impera e domina.(MORGADO,1987,p.18).
A maior parte dos estudos sobre mulher da literatura contemporânea são referentes a
análises da linguagem feminina em texto escrito por mulheres. Apresenta também aspectos do
cotidiano que mostram mulheres encarando a vida de diferentes modos, mas que dialogam com o
sexo masculino num direcionamento para se firmarem numa relação igualitária,um tanto
contraditório, pois graças a convenções,mulheres se calaram durante muito tempo e agora
descobrem que somente num dialogo paralelo com o ser masculino elas conseguem se reerguer.
(Nicholson, 1993, p.266) afirma que assim como a cultura patriarcal foi criada a partir da
experiência do homem ou, mais precisamente, da experiência do homem branco de classe média e
alta, as feministas estão criando uma nova cultura mundial baseada na cultura das mulheres.
Literatura feita por mulheres
Em relação a conquista de espaço no campo literário mulheres por espaço na crítica literária
Heloísa Buarque de Hollanda e Lúcia Araújo, no livro Ensaístas Brasileiras (1993) escreveram
o seguinte trecho:
Desta forma pode-se perceber, na própria estrutura dos verbetes, os vários momentos da
história da crítica feminina. No século XIX, os dados de identificação são
recorrentemente vinculados à origem familiar e à atuação em revistas e publicações
informais, determinando uma formatação mais narrativa e circunstancial. A partir de
1934, com a Fundação das Faculdades de Filosofia no Brasil, e, principalmente, no
período posterior à regulamentação dos cursos de pós-graduação que permitiram a
consolidação da pesquisa acadêmica, os verbetes tornam-se mais técnicos refletindo a
profissionalização da crítica feminina. (p.9)
Coutinho (1994, p.14) reforça que‘‘as mulheres eram concebidas como emocionais ao
extremo, incapazes de uma decisão racional, frequentemente choronas, ranzinzas, resmungonas e
cobradoras’’. Por esta razão as mulheres eram consideradas como frágeis por parte dos homens que
não admitiram sua participação na sociedade de forma igualitária.
A solução para esse monólogo foi que algumas mulheres começaram produzir obras
literárias dentro de um padrão masculino e analisadas a partir de uma visão masculina.
Se a atitude orientada pelo relacionamento é mais característico do feminino, o lado
sombrio ou aspecto não-reconhecido tem um desejo de poder ilimitado. Na medida em
que a mulher é, por natureza, de funcionamento cíclico e às vezes não tem a capacidade
de agir de forma totalmente extrovertida, ela anseia por essa liberdade completa que ,
imagina, pertence ao macho. .(NICHOLSON, 1993, p.136)
Somente desta forma algumas conseguiram estabelecer um perfil de obra e crítica feminina
na literatura e consequentemente atribuíram uma nova configuração a personagem feminina na
literatura brasileira. É nesta visão de mulher autônoma, porém dialógica que Myriam Fraga escreve
a 11ª estrofe do poema Maria Bonita: [...] Sou o gosto de sal, Veneno que espalharam/ No preto.
[...]. O poema em questão traz inicialmente uma personagem feminina passiva, construída por
figuras poéticas que conotam docilidade e em seguida nos sugere uma mulher sufocada em sua
sexualidade; uma mulher relativamente ignorante, rude.
A posição de um ego voltado para objetivos da identidade, reconhecimento e poder dá
margem a uma sombra, uma contraparte inconsciente inferior que recusa significado e
reprime o sentimento. a mulher nesta posição pode facilmente ser dominada pelos
valores patriarcais ao seu redor.( NICHOLSON,1993,p.137)
Invoca também uma possível evolução para esta mulher, através do ser masculino deixando
para o leitor a idéia de pureza do homem e “impureza da “mulher”. Apresenta uma luz metafórica
que inebria esta mulher e ao mesmo tempo reforça a idéia de falta de perspectiva da mesma. “As
escolhas das mulheres são estruturadas em grande parte por relacionamentos. “Ao contrário, os
relacionamentos entre homens tendem a ser estruturados largamente pelas escolhas que fazem”.
( NICHOLSON, 1993, p.136)
A idéia da liberdade e soltura do ser masculino para quem Maria Bonita aclama. Trata a
sexualidade masculina como um braseiro passando para o leitor a conotação de extrema virilidade
do homem. Morgado (1986), afirma que:
Há ainda a de considerar o fato de que, para os homens, uma moça mãe solteira significa
que ela está disponível [...] para um relacionamento sexual fato, aliás, que ocorre com as
mulheres desquitadas sem que haja tempo para se conhecerem melhor (p.56)
Não ocorreu também a nenhuma das mulheres que debater também a liberdade de amar
necessariamente não corresponde a apoiar libertinagem e promiscuidade - nenhum
assunto ou debate se perde por haver opiniões contrárias, nenhuma idéia é
necessariamente uma fonte de contágio de moralidade ou imoralidade, e senhoras por
foca de vidas já vividas não são jovenzinhas impressionáveis - ou não deveriam sê-los
mais nesta altura da vida. (p.78)
Seja qual for a definição de masculino e feminino, as qualidades femininas são
reprovadas e, consequentemente, tendem a ser reprimidas .Essas qualidades reprimidas
numa determinada mulher torna-se animus.(NICHOLSON,1993,p.172)
Dois períodos literários; duas faces antagônicas
No período romântico as mulheres eram concebidas como delicadas, sagradas, boazinhas, débeis
e ícones de beleza. Atingi-las seria um erro ao homem, pois essas eram sempre vencidas pelo amor.
Sobre esta idéia de ser intocável (NICHOLSON, 1993, p.33) diz que mais e mais mulheres estão
relacionando a idéia de divindade não com uma imagem antropomórfica, nem mesmo como umas
fagulhas divinas dentre nós, mas como a energia que flui os próprios processos da vida e do viver.
No Realismo, as mulheres eram ousadas, fortes, decididas sedutoras porque o contexto histórico
é transformado e com a estabilidade da sociedade burguesa começaram a surgir escritores e críticos
literários que apreciavam a independência, a racionalidade, e resgatavam os saberes socialmente
dominados. Foucault entende que saberes dominados são assim compostos:
[...] por duas coisas: por um lado, os conteúdos históricos que foram sepultados,
mascarados em coerências funcionais ou em sistematizações formais [...] Em segundo
lugar, por saber dominado se deve entender outra coisa [...] inteiramente diferente: uma
série de saberes que tinham sido desqualificados como não competentes ou
insuficientemente elaborados. (FOUCAULT, 2006 p.170)
Esta vontade está se realizando. Mas o período que atravessamos é um período de
transição; este mundo que sempre pertenceu aos homens ainda continua nas mãos deles;
as instituições e os valores da civilização patriarcal sobrevivem a se mesmos em grande
parte. Os direitos abstratos ainda estão longe de ser integralmente reconhecidos em toda
parte às mulheres. (BEAUVOIR, 1949, p.181)
Considerando essa posição teórica de que as mulheres possuíam saberes dominados e que hoje
existe uma valorização desses saberes, além do acréscimo de cultural desta mulher, faz sentido dizer
que a mudança de mentalidade na sociedade moderna e contemporânea contribuiu para que o perfil
da mulher fosse redimensionado.
A visão de mulher da escritora Myriam Fraga
Os estudos sobre gênero na obra de Fraga se dão através da intertextualidade, ou seja, a
interpretação da linguagem subjetiva e os elementos sócio-históricos que compõem a obra e
promovem o diálogo com as teorias dos estudos de gênero. Nas entrelinhas do poema Maria Bonita,
por exemplo, percebem-se os referidos elementos sócio-históricos quando da intenção da autora
Myriam Fraga, de apresentar a influência e o poder como exemplos das expectativas que a
sociedade desenvolveu sobre os diferentes papéis associados ao sexo. Nese sentido a autora utiliza
de constituintes poéticos que ora denuncia, ora justifica situações adversas , delimitanto as duas
faces de uma mulher forte e oprimida .
Estas expectativas sociais regulam o modo como as pessoas usam estas estratégias para
controlar os demais. Acredita-se, que estereótipos de que a mulher é menos competitiva, agressiva e
ou menos inteligente do que o homem pode limitar as estratégias femininas para a sua atuação
social. Pode-se notar também que o poema Maria Bonita traz questões existenciais do ser
humano, como os encantos e desencantos amorosos,sufocamento da expressão sexual da mulher e
adentra nas possíveis reflexões sobre o papel da mulher na sociedade[...] Tua mulher,/ tua
terra/Tua alma/Tua roça/ Coivara [...] A noite é farta/Como besta no presente cio [...] (FRAGA,
1996, p30).
Relação de poder no poema Maria Bonita
Os estudiosos da literária feminista perceberam que o patriarcado estava em toda parte, por
isso tentou redimensionar os papéis sociais desempenhados por homens e mulheres na literatura
brasileira contemporânea. Isto porque na perspectiva da burguesia, na qual a literatura da época se
baseia, as mulheres são excluídas de algumas atividades, principalmente das relativas ao
engrandecimento espiritual. Em contrapartida era conferida à mulher os estereótipos de boa,
sagrada, rainha do lar numa intenção de controle machista. [...]Torna-se difícil para uma mulher
abandonar este lugar de priivilégio que ela sempre gozou no espaço privado e de onde ela não só
vem organizando sua sobrevivência e resistência , como também vem participando , indiretamente –
através da influência contínua que pode exercer sobre os filhos e, muitas vezes também sobre o
marido [...] ( COUTINHO,1994, p.64).Assim, essas mulheres eram tolhidas de liberdade de
pensamento, de escolha, de senso crítico, de postura autônoma e de mais possibilidades de viver as
emoções, sonhos e conquistas da humanidade. A personagem do poema “vive” essas limitações e
por isso utiliza de estratégias para sobreviver nesta relação tensa de poder[...] Areia no sapato/Sou a
rede.[...] Pasto de aves meu corpo/Que trabalhas/Como quem corta e lavra. [...]
(FRAGA,1996,P.30). O poema trata também sobre a sensualidade da mulher, no entanto , esta
sensualidade não é concebida equanto parte essencial do ser feminino mas como elemento
simbólico do ser masculino, ou seja , a sensualidade de mulher em Maria Bonita está projetada
como um instrumento de controle do seu parceiro sexual e não como uma propriedade dela ,
enquanto ser humano. Tua égua parida/Sou a roseta na carne,/O lombo nas esporas. Essa proposta
de submissão sexual costuma ser um elemento de controle ou dominação masculina numa
sociedade patriarcal. [...]Aberta como um fruto/Sou soluço/Fome escura/De poço/Sou a caça [...]
(FRAGA, 1996, p30) .
Para a grande maioria das mulheres , este mundo conserva seu brilho depois do
casamento ; só o marido perde seu prestígio; a mulher descobre que a pura essência do
homem nele se degradou.Contudo o homem continua sendo a verdade do universo , a
autoridade suprema , a maravilhosa aventura, o senhor , o olhar, a presa , a salvação , o
prazer; encarna ainda a transcendência, é a resposta a todas a perguntas.E a mais leal das
esposas nunca consente em renunciar inteiramente a ele para se encerrar na morna
companhia de um indivíduo contigente. (Beauvoir, 1949, p.349)
Coutinho (1994) critica a submissão e controle patriarcal dizendo que ser mulher o e ser homem são
categorias construídas e, portanto , o ser mulher , da mesma forma que o ser homem , é resultado
de uma intrincada rede de significações.Assim, apesar de construir o grupo mais numeroso na
maioria das sociedades ( a metade ou mais da população de suas regiões ou países, o que é ser
mulher diz respeito a mulheres de diferentes grupos étnicos e camadas sociais .(p.17)
Há também na poesia em questão um estado metafórico de trevas para a mulher e de luz
para o homem. Esta luz serve como seta, indicação para uma mulher submissa aos caprichos do
homem.[...] Vem, meu dono/ meu sócio,/
Meu comparsa.[...]( FRAGA,1996, p.30).
Maria Izilda (2000) discute a relação de gênero alertando que é importante observar as
diferenças sexuais enquanto construções culturais, linguísticas e históricas, que incluem relação de
poder não localizadas exclusivamente num ponto fixam-no masculino, mas presente na trama
histórica (p.23). No mesmo poema há também outra perspectiva para a personagem feminina,
concebendo-a numa posição igualitária ao homem.[...]Sou montaria e cavalo/Fúria e faca./Ferro
em brasa na espádua[...](FRAGA,1996 ,p.30).Esta mulher é apresentada neste segundo momento
poético, enquanto força perigosa e controle do ser masculino porque esta representa sua segurança,
sua razão e a agilidade. A personagem é descrita finalmente enquanto ágil dominadora e dominada
num equilíbrio tanto com o seu parceiro quanto em relação à vida.[...] Desata a cartucheira/Teu
campo de batalha/Sou eu.[...] (FRAGA, 1996,p.30).
Nas diferentes classes sociais, a mulher se encontra sob pressão de ter que responder
simultaneamente a distintas solicitações dentro e fora de casa. A ternura e a calma que
necessita para cuidar de um bebê nada têm a ver com o retiro acelerado da fábrica ou da
firma onde trabalha, e isto Faz com que a mulher se sinta puxada para dois lados – de um
lado, a necessidade de ser mãe; de outro, a necessidade de ser pessoa. (Morgado, 1987,
p.45)
No poema analisado, a mulher é representada como força perigosa e controle do ser
masculino porque esta representa sua segurança, sua razão e a agilidade sem ter a caricatura da
figura masculina.[...] Sou tua fera./ Sussuarana/No escuro - bote e salto.[...] (FRAGA,1996,p.30)
“Esta compreensão geral do princípio feminino é reforçada por um conjunto complexo de símbolos
e mitos que aparececem em todas as formas de arte e literatura , assim como na religião e na
psicologia (NICHOLSON, 1993, p.114)
A mulher que imita compulsivamente padrões de pensamento e atividade que lhe
parecem masculinos estará, quando muito ,conseguindo transformar-se numa triste
caricatura da figura masculina tradicional. (NICHOLSON, 1993, p.65)
Então nos faz uma descrição sugestiva do universo feminino enquanto aquela que possui
toda riqueza que a segurança e o controle e racionalidade do homem.
A personagem Maria Bonita é descrita finalmente enquanto ágil dominadora e dominada
num equilíbrio tanto com o seu parceiro quanto em relação à vida.
Considerações finais
No seu processo de socialização, as mulheres foram treinadas para serem emocionais, para
serem mais filantrópicas, enquanto que os homens aprenderam a ser totalmente racionais. As
circunstancias sociais as relações de gênero modificam as convenções e explica a mudança da
mulher e a evolução do perfil feminino na literatura brasileira. Enquanto que o patriarcalismo e a
dominação da mulher são formas históricas não naturais, que causaram um atraso social e
intelectual danoso no histórico de vida da mulher. Os estudos e produções literárias enquanto
conhecimento acadêmico elemento socio-cultural, têm contribuído bastante na mudança de
paradigma da figura feminina. Vale salientar, no entanto que apesar de importantes políticas e
transformações sociais tenham acontecido, ainda existem desigualdades no tratamento entre
mulheres e homens, especialmente no nosso país.
Trabalhos de pesquisas e de crítica como estes, são importantes para a exploração deste tema
sob novos enfoques propagando a ideologia de igualdade entre os gêneros e para questionar alguns
mitos e estereótipos antigos a respeito da figura feminina.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEAUVOIR, S.-O Segundo Sexo - Círculo do Livro, Nova Fronteira, São Paulo, 1949
FOUCAULT, Michel- Microfísica do Poder- Edições de Graal, Rio de Janeiro, 1979
HOLLANDA, Heloisa Buarque de Ensaístas Brasileiras-Rocco, Rio de Janeiro, 1993
MATOS, Maria Izilda S. de, Por uma História da mulher-EDUSC, São Paulo, 2000.
MAY, Rollo, O Homem à procura de si mesmo-editora Vozes, Rio de Janeiro1973
MORGADO, Belkis Frony-A marca do gado: rótulo da mulher - José Olympio, Rio de Janeiro,
1987
FRAGA,Myriam,Femina-Fundação Casa de Jorge Amado,Salvador,1996
NICHOLSON, Shirley-O novo despertar da deusa: o princípio feminino hoje- Rocco, Rio de
Janeiro, 1993
ROCHA,Coutinho, Lúcia - Tecendo por trás dos panos: a mulher brasileira nas relações familiares
- Gênero Plural, Rio de Janeiro, 1994.
POESIA ANALISADA
MARIA BONITA
Autora:Myriam Fraga
Esta noite em Angico
a brisa é calma.
No silêncio farfalham
Minhas anáguas
Como farfalham asas
E no escuro minha carne
Cheira a mato.
Vem meu amor e lavra
Este roçado
Como quem quebra
Um cântaro,
Como que lava
A casa;
Águas frescas na tarde.
Tuas límpias carícias,
Teus dedos como pássaros
E teu corpo que arde
Como estrelas
No espaço.
Não quero tua candeia,
Só meus sonhos acesos
E eu te direi de nácar
Meu caminho,
Na planta de teus pés;
Meu horizonte,
No risco de tuas mãos
E meus cabelos
Esparsos sobre a relva
Em que me habitas.
Sou teu medo, teu sangue,
Sou teu sono,
Tua alpercata
De couro,
Teu olho cego, miragem
Dos vidros
Com que miras
A mira do mosquete.
Sou teu sabre,
Facão com que degolas.
Sou o gosto de sal,
Veneno que espalharam
No prato.
Sou a colher de prata
Azinhavrada. Sou teu laço
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata
Sua a ponta
Do teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
Sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro - bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme. Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem, devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
- fúria e falta -
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele do meu peito
Esta fome sem data.
Azinhavrada. Sou teu laço
Teu lenço
No pescoço.
Sou teu chapéu de couro
Constelado
Com estrelas de prata
Sua a ponta
Do teu punhal buscando
O peito dos macacos.
Sou teu braço,
A cartucheira cruzada
Sobre o peito,
Sou teu leito
De angico e alecrim
Sou a almofada
Em que deitas a face,
O cheiro agreste
Dos homens que mataste.
Sou a bainha
E a lâmina é meu resgate.
Sou tua fera. Sussuarana
No escuro - bote e salto.
Jaguatirica acesa nestes altos
Mundéus de teu alarme. Sou o parto
Da morte que te espreita.
Sou teu guia
Tua estrela, teu rastro, tua corja.
Sou tua mãe que chora,
Sou tua filha. Teu cachorro fiel,
Tua égua parida.
Sou a roseta na carne,
O lombo nas esporas.
Sou montaria e cavalo,
Fúria e faca.
Ferro em brasa na espádua
Sou teu gado,
Tua mulher, tua terra,
Tua alma,
Tua roça. Coivara
Que incendeias e apagas,
Tua casa.
Areia no sapato.
Sou a rede
Aberta como um fruto,
Sou soluço. Fome escura
De poço. Sou a caça
Abatida. Lebre e gato,
Coisas quentes ao tato.
Vem, meu dono, meu sócio,
Meu comparsa.
Desarma o teu cansaço,
Desata a cartucheira,
A noite é farta
Como besta no cio,
A noite é vasta.
Vem, devagar
E habita meu silêncio
Como se habita
Um claustro.
Lâminas. Como espadas.
Pasto de aves meu corpo
Que trabalhas
Como quem corta e lavra.
Desata a cartucheira,
Teu campo de batalha
Sou eu.
Por um momento
Esquece o que te mata
- fúria e falta -
E enquanto a noite é calma
Vem e apaga
Na pele do meu peito
Esta fome sem data.

 

Autor deste artigo: EDIMAURA - participante desde Sáb, 19 de Setembro de 2009.

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